Imunoterapia é muito bem-vinda ao SUS

Artigo de Rodrigo Munhoz e Gustavo Santos Fernandes*

Em 2015, o 39º presidente americano, Jimmy Carter, recebeu de seus médicos a notícia de que o tumor que tivera diagnosticado, um melanoma, havia se espalhado para o cérebro; homem culto e experimentado, então aos 89 anos, ele sabia da gravidade do quadro. Sentou-se, escreveu uma carta de despedida, mas, antes da partida, resolveu tentar um último tratamento, a recente imunoterapia para o câncer. Hoje, aos 94 anos, Carter é um exemplo de como a Ciência pode estender a vida e reverter cenas extremas.

O melanoma é um agressivo tumor da pele que chama a atenção há milênios; os primeiros relatos do melanoma, termo que vem do grego “melas” (escuro) e “oma” (tumor), são atribuídos ao pai da medicina moderna, Hipócrates. Por décadas, a quimioterapia convencional reinou como única opção de tratamento para pacientes acometidos pelas formas avançadas do melanoma, porém com resultados pífios.

Com o avanço da Ciência, foi possível reconhecer que o câncer se desenvolve a partir de falhas nos mecanismos de defesa do organismo. Ao longo do século 20, pesquisadores descobriram a importância de proteínas que atuam como freios para o sistema imunológico, permitindo assim o crescimento de um tumor. James Allison, um texano com passagens pelos mais prestigiados centros de pesquisa dos Estados Unidos, e Tasuku Honjo, um renomado imunologista japonês, propuseram que o bloqueio dessas proteínas seria então capaz liberar o ataque do sistema imune contra o câncer. Suas descobertas viabilizaram o desenvolvimento da primeira imunoterapia baseada em anticorpos, rendendo a ambos o Prêmio Nobel de Medicina em 2018. Como resultado, as chances de controle do melanoma e prolongamento de sobrevida dos pacientes se multiplicaram, partindo de meses de vida até atingir a cura em alguns casos, algo inimaginável anteriormente.

Desde então, a maior parcela daqueles acometidos pelo melanoma no Brasil permaneceu excluída desses avanços. Ser brasileiro significa também enfrentar desigualdades diárias, mas aqui parecia algo realmente inaceitável; o abismo era gigante. Frente a este despenhadeiro, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica liderou um processo de incorporação desta terapia no Sistema Único de Saúde (SUS). Foram três longos anos até que, no último mês, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) emitiu um parecer favorável à incorporação da imunoterapia para pacientes com melanoma avançado no SUS.

Essa notícia foi fruto do reconhecimento das agências governamentais da legitimidade dos dados, da articulação de sociedades médicas e profissionais de saúde, da participação de entidades de representação de pacientes e da disposição de representantes da indústria farmacêutica a buscar caminhos e soluções. Foi um exemplo de um esforço conjunto, norteado por uma discussão crítica, reconhecendo os limites que enfrentamos em um cenário de custos crescentes da saúde e uma ameaça de piora às restrições orçamentárias.

Esse parecer deve ser muito celebrado, mas a batalha por mais acesso precisa continuar. Hoje, a imunoterapia tem seu lugar no tratamento de até 40% dos cânceres avançados, e não há previsão de incorporação deste tratamento nesses outros cenários. O custo é, de fato, elevado: são dezenas de milhares de reais, pagos por medicamentos que não produzimos e nos quais participamos apenas marginalmente do desenvolvimento. Fica fácil entender que, com investimento em Ciência, seríamos protagonistas neste processo; é estratégico e óbvio. Convém lembrar também que, a despeito dos avanços, a imunoterapia não será a solução para todos os casos, e cabe à Ciência buscar mais respostas.

Celebramos a conquista, esperançosos de que a Ciência e saúde pública tornem cenários como o de Jimmy Carter a regra no tratamento do câncer.

*Rodrigo Munhoz é médico do Centro de Oncologia – Hospital Sírio Libanês e vice-presidente para Ensino da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Gustavo dos Santos Fernandes é médico, diretor do Hospital Sírio Libanês em Brasília e foi presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica

FONTE ORIGINAL DO ARTIGO: O Globo

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