Apenas 34% das equipes de atenção primária do SUS foram treinadas para enfrentar pandemia, mostra estudo da Fiocruz

Apenas 34% dos profissionais das equipes de Atenção Primária à Saúde do SUS receberam capacitação sobre Covid-19 e sobre uso de equipamento de proteção individual (EPI). Quando analisados de forma segmentada, o percentual que recebeu capacitação sobre EPIs foi de 41,1%, e sobre a doença (em geral), de 54,2%

Os dados são de uma pesquisa conduzida pela Fiocruz, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Federal de Pelotas (UFPel). O objetivo é identificar os desafios e analisar as estratégias usadas no enfrentamento da pandemia no sistema público de saúde pelas equipes de atenção primária, que incluem profissionais de saúde da família e de saúde bucal.

Participaram da pesquisa 2.566 profissionais e gestores da Atenção Primária à Saúde ou Atenção Básica, de todos os estados do país e do Distrito Federal. Eles responderam às perguntas em um questionário online entre os dias 25 de maio e 30 de junho deste ano. O estudo foi uma iniciativa da Rede de Pesquisa em Atenção Primária da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS).

A presença de equipamentos nas unidades de saúde também foi analisada. O acesso ao conjunto de todos os EPIs foi considerado "sempre disponível" por apenas 21,7% dos entrevistados, e quase 90% dos gestores relataram dificuldades durante a compra de equipamentos. A disponibilidade de insumos também apresentou percentuais baixos, constatando a dificuldade em ofertar cuidado adequado aos usuários, enfatiza o estudo.

Equipes fazem adaptações

A pesquisa revela ainda que o uso do WhatsApp e do celular se tornou essencial para realização de teleconsulta e monitoramento dos pacientes. Eles já são parte do cotidiano das Unidades Básicas de Saúde. Porém, a disponibilidade de internet não é boa para quase 60% dos profissionais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Entre os entrevistados, 70% afirmaram usar o celular pessoal para contato com pacientes.

— As Unidades Básicas de Saúde estão se reinventando. Elas estão descobrindo novas formas de cuidar do paciente. Mas faltam recursos, como o acesso à rede, necessária para o contato à distância, além de oxímetros, termômetros infravermelhos e EPIs — lista Ligia Giovanella, pesquisadora da Fiocruz e uma das coordenadoras da pesquisa, ao lado de Aylene Bousquat (USP), Luiz Augusto Facchini (UFPel), Maria Guadalupe Medina (UFBA), e Maria Helena Magalhães de Mendonça (Fiocruz).

A pesquisadora ressalta a necessidade de amplificação da capacidade de testagem, que possibilita identificar os casos e fazer o rastreamento dos contatos. Mais da metade dos profissionais entrevistados (55%) relataram que não têm acesso ao teste molecular RT-PCR para diagnóstico da Covid-19.

— E nas regiões Norte e Nordeste chega a 69% os que não têm acesso aos testes. A vigilância em saúde, ou seja, identificar oportunamente os casos, cuidar, buscar contatos e fazer o isolamento para que não contaminem outras pessoas, é uma das atividades mais importantes para o controle da pandemia. Esse acompanhamento é crucial e precisa ser feito cotidianamente. O rastreamento dos contatos é crucial para evitar uma nova onda — explica.

Ligia Giovanella destaca a importância da atuação dos agentes comunitários de saúde no rastreamento dos casos, mas também no apoio social às famílias mais vulneráveis e na educação em saúde à distância e nas visitas peridomiciliares (sem entrar nas casas) com EPIs adequados.

No entanto, apenas 37% dos profissionais informaram que os agentes estão atuando prioritariamente no território. Em muitas unidades, eles foram deslocados para a recepção de pacientes sintomáticos respiratórios.

— O Ministério da Saúde tem desperdiçado essa potência de mais de 40 mil equipes de Saúde da Família, com mais de 260 mil agentes comunitários de saúde que poderiam estar contribuindo de forma muito mais efetiva e com muito mais potência no controle da pandemia — avalia.

Atenção Básica na vacinação

O estudo ressalta a importância da Atenção Primária à Saúde na vacinação e afirma que, no caso de uma das vacinas contra a Covid-19 em desenvolvimento serem comprovadas como efetivas e disponibilizadas no país, essas equipes terão um papel importante para fazer com que ela chegue a todos os locais. Por isso, a pesquisadora da Fiocruz defende que o investimento nas Unidades Básicas de Saúde é fundamental.

— Uma proporção importante das Unidades Básicas ofertam vacinas regularmente e dispõem de geladeiras específicas para elas. Esperamos ter logo uma vacina contra a Covid-19, mas é necessário também a manutenção dos equipamentos, a disponibilização dos insumos para aplicação, a preparação e a logística de distribuição. Este ano, por exemplo, tivemos problemas com a distribuição da vacina contra a gripe — explica Ligia Giovanella.

 

FONTE ORIGINAL DA MATÉRIA: O Globo

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